06/05/06

Deixem o menino dormir!

Na Universidade de Tóquio vigora o magistocentrismo. O Professor debita, o aluno escuta e ninguém espevita, isto é, ninguém conversa e poucos chegam atrasados. No entanto é permitido dormir, da primeira à última fila, vários alunos dormitam nas mais estranhas posições. Atinge-se o auge nas aulas por vídeo-conferência, em que o Professor, usando tecnologia de ponta, transmite a partir de algures.

A interacção professor/aluno é miníma e embora de corpo presente, por vezes, é habitual estar de mente ausente. Uns dormem, outros estão atentos, há quem estude outras disciplinas e há quem se entretenha com os seus computadores portáteis. O mesmo espírito se aplica às 6h de reuniões semanais que tenho no laboratório e os 2 sófas-cama que possuímos confirmam a filosofia.

As bibliotecas e as cantinas também são bons sítios para avistar os meninos que dormem. Mas nada comparável com a destreza dos commuters que, 5 seg após entrarem no comboio, assumem o modo Stand-By. Afinal de contas... organização e optimização são 2 dos pilares do sucesso Nipónico. Pois quando o cansaço aperta e o sono desperta,... não há nada como dormir!

Post scriptum: O Povo Japonês é muito trabalhador e, em Tóquio, os commuters e alguns estudantes passam 3h ou 4h diárias nos transportes públicos. Este texto não pretende desvalorizar ninguém. Todos nós podemos ser vencidos pelo cansaço.

20/04/06

Um momento Andaluz

O Homem procura exprimir o que está dentro e fora de si, e nesse intuito surgiram as artes. Para que o Homem não se acanhe e a alma se agigante...

A música e a dança têm o dom de nos fazer suspirar e, foi assim que, no Domingo passado, decidi ir ao espectáculo anual da Associação Japonesa de Flamenco. Tratou-se de uma decisão acertada pois vivi 3h30 de expressividade, paixão e alguma quase-que-alucinação.

Fiquei agradavelmente surpreendido pela fabulosa interpretação de um sentimento tão Andaluz. Mas acredito que há características intrínsecas ao povo Andaluz que os Japaneses não conseguem sentir ou reproduzir. Mais uma vez se confirma a alma apaixonada do povo Ibérico. Viva o Fado! Viva o Flamenco! Viva a Peninsula Ibérica!

Sub-repticiamente tirei algumas fotografias com a teleobjectiva nova. Não fazem jus à dimensão do evento, mas aqui vos as deixo...
http://rebordao.net/temp/flamenco/

18/04/06

Em flagrante delito!

Sábado passado a policia fez-me uma operação STOP, e tudo porque dei boleia a uma vizinha. Iamos da estação para a residência quando ouço uma voz amplificada pelas colunas de um carro patrulha. Olhei para o lado e paralelamente a nós seguiam 2 policias de olhar duro. Obrigado a parar lá tive de mostrar os documentos (cartão de estudante, BI Japonês e o registo de propriedade da BICICLETA).

Deixaram-me ir na paz do Senhor mas com o aviso de que 2 pessoas na bicicleta não pode ser. Como se eu não soubesse... ;-)

09/04/06

Apanhados I

Bicicleta abandonada em Shimokitazawa - Tóquio
A acção humana é efémera quando comparada com a da mãe Natureza. A selva reconquistou as cidades Maias e as flores conquistam as cidades de hoje.

31/03/06

Sakura

As cerejeiras em flor (Sakura), na sua migração de Sul para Norte, atingiram Tóquio e o branco instalou-se. A beleza efémera da flor é motivo para muita socialização - organizam-se piqueniques e autenticas peregrinações colectivas em busca da flor que enche o olhar (Hanami). Os Media acompanham diariamente o avanço da floração e fazem disso um acontecimento nacional.

A Sakura é Rainha e Senhora de um momento fugaz onde muitos Japoneses, de íris bem aberta, invadem os parques de máquina fotográfica ou telemóvel em punho para captar a beleza da flor. Há também quem estenda as mantas de piquenique sob as copas floridas (alguns fazem-no durante a noite para obterem os melhores sitios) e se deixe levar pelo deleite do branco. Familias, amigos, crianças e idosos todos unidos sob a egide da flor!

Também eu procuro beber desta beleza envolvente que tanto me recorda as cerejeiras da minha terra. As cerejeiras em flor da Serra da Gardunha (Beira Baixa - Fundão) além de serem igualmente belas geram deliciosos frutos, o que já não acontece com as congéneres Japonesas (que apenas dão flor).
Mais fotografias disponíveis em http://rebordao.net/temp/sakura/

20/03/06

Yoyogi Koen I


O Elvis Presley está vivo! Vive em Tóquio e à sua volta há moças de trajes estranhos.

O parque de Yoyogi Koen podia ser mais um parque banal com os habitue normais (namorados e familias em piquenique; praticantes de yoga; desportistas solitários e equipes a jogar futebol ou rugby com um frisbee) mas como descrever os aspirantes a Fred Astaire, as bandas que não-são-de-garagem, os 26 sócias do Elvis e as moças de Harajuku?!

Aos fins-de-semana músicos e bandas trocam a garagem (que não existe) pelo verde de Yoyogi Koen. Com os seus geradores e amplificadores inundam o parque de Jazz, Rock e Folk. O mesmo se aplica ao Tokyo Rockabilly Fan Club que, em grande estilo, nos faz crer que o Elvis está vivo e, por entre vendedores ambulantes de comida, lá se encontram à saída da estação as coloridas moças de Harajuku.

NOTA: as moças (também há moços) de Harajuku são adolescentes que procuram manifestar a sua individualidade, quebrar alguma da rotina semanal e captar a atenção e a simpatia de quem passa. Numa sociedade orientada em torno de grupos e do uso de uniformes as moças de Harajuku criaram o seu próprio grupo que se veste com uniformes individuais de cores alegres e adereços extravagantes. Algumas delas parecem frutas gigantes de cores psicadélicas mas os estilos predominantes são as Góticas, as Lolitas, as Decoras e as Cyber-fashion. Adoram ser fotografadas e podem ser vistas aos fins-de-semana em Harajuku.

14/03/06

Tailândia I

Se o Natal é quando o Homem quiser, o verão também o é! Pelo menos enquanto pudermos voar para os trópicos. Foi assim que os tunisínos Wael e Achraf e o vosso António (aka eu) se embrenharam numa curta e intensa visita ao reino da Tailândia.

Ao sair do avião o calor intenso envolveu-nos numa cortina húmida. A caminho do hotel comovemo-nos com as árvores estranhas que nos ofereciam o auge da sua floração enquanto os nossos ávidos olhos de turista observavam os nativos, as cores alegres e o reboliço de Bangkok com os seus 8 milhões de habitantes.
O hotel revelou-se uma óptima surpresa. Largamos as bagagens e partimos de novo... Em Silom (uma das zonas centrais da cidade) esperava-nos uma mistura de cheiros e cores; a tentação que habita as ruas de PatPong; os divertidos táxis Tuk Tuk e uma imensidáo de vendedores de rua (fruta, comida, roupa, souvenirs, inutilidades, etc). Recomenda-se negociar os preços, é frequente pedirem até 5 vezes o preço por que estão dispostos a vender, aqui turista é pato!
Há que visitar o templo Emerald e o de Wat Pho e, nos intervalos, beber um coco fresco, embriagar os sentidos com frutas tropicais, deleitar-se com a gastronomia local (tendência para o picante, uso da galinha, do peixe, dos moluscos e dos frutos do mar) e experimentar as famosas massagens Tailandesas.

Fora de Bangkok recomenda-se uma ida à famosa praia/cidade/ilha de Pattaya (157Km Sudoeste), ao Mercado Flutuante (76Km Oeste) e a Ayuttahaya (83Km a Norte). Nessas viagens talvez possam vislumbrar um imaginário de selvas com elefantes, crocodilos, tigres, cobras venenosas, iguanas em abundândia, ruinas de civilizações idas, frutas exóticas a crescer à beira da estrada e o Oceano Indico ali mesmo ao lado.O regresso a Tóquio é doloroso. Aqui não há as cores fortes e/ou o calor das paisagens tropicais... Mas... assim é a vida! Para me animar, já comecei a planear a próxima expedição (Tailândia e Cambodja - Agosto 2006).

Mais fotografias disponíveis em http://rebordao.net/temp/tailandia1/

04/03/06

O culto

Preenchi uma tarde chuvosa deambulando por Kasumigaseki. Uma zona de escritórios pontuada por salarymen em movimento, alguns templos e cemitérios. Os arranha céus impõem-se e fazem-nos esquecer que os templos precederam a urbanidade actual.

Explorei os jardins de 2 templos Xintoístas e, fugindo da chuva, abriguei-me num dos grandes templos Budistas (Zõzõ-ji) da área. O cântico febril de 2 monges e o rufar dos instrumentos de percussão convidaram-me a entrar. Encontrei-me então num local amplo e escuro onde meia dúzia de crentes se envolviam em preces e no intenso cheiro a incenso. Um som ensurdecedor ecoava por entre as colunas vermelho lacre à medida que os monges convergiam para o transe religioso. Dois Budas laterais ladeavam o altar principal onde um outro Buda assistia impávido a contemplação dos crentes e, do interior do templo, chegava-nos o soar dos gongos e a indicação de cerimónias misteriosas que não nos era permitido presenciar.

Subitamente os monges retiraram-se, e o silêncio instalou-se, passados breves instantes regressaram na companhia de um outro sacerdote. Solenemente ocuparam posições junto ao Buda central e, de costas viradas para os 11 crentes presentes, iniciaram um serviço religioso. Crentes e sacerdotes envolveram-se no transe dos cânticos, no soar dos gongos e na deferência das vénias. Eu, embriagado pelo cheiro, com o coração apressado pelos sons, repousava o meu olhar na simplicidade e elegância do local, no dourado dos altares, no vermelho lacre das colunas e na peculariedade do evento.
Fonte da purificação num dos templos Xintoístas de Kasumigaseki

23/02/06

Poema VI

Bambus do templo Hasedera em Kamakura
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Excerto do poema "Pelo sonho é que vamos"
Sebastião da Gama (1924-1952)

22/02/06

Kamakura II

A generosidade do Professor Hirose levou-me, juntamente com 3 dos meus colegas de laboratório, até à bela cidade de Kamakura, num sábado inundado de sol, azul, verde, e das primeiras promessas de Primavera.

Corpo e Alma agitam-se ao saírem do frenesim da grande cidade, embriagam-se nos rituais, nas lendas e na espiritualidade que caracterizam os templos Zen, Xintoístas ou Budistas que abundam neste sitio intemporal.

Deixamos o verde e olhamos para Leste, o olhar perdido no Oceano Pacifico ao sabor de um quotidiano intenso. Ave Mundi Luminar!

12/02/06

Obrigado Senhor!

As Universidades Japonesas formam uma cordilheira montanhosa cuja missão se baseia na busca e na partilha do conhecimento - o pico mais alto chama-se Universidade de Tóquio. Para muitos nativos o sonho de uma vida é escalar até ao cume, os felizes eleitos começam, muito jovens ainda, a preparar-se para tal.

Um punhado de estrangeiros aceitou o repto da escalada. Com o alto patrocínio do governo Japonês busca-se a vertigem de passar para o lado de lá das nuvens.

Instalámos a 1ª base no sope da montanha e durante 4.5 meses por aqui ficámos. Explorámos os arredores, adquirimos vivências, intoxicámo-nos com sonhos conscientes, aprendemos Japonês e o corpo lentamente se habituou à mudança de ares.

No dia 5 de Fevereiro avistámos a 2ª base mas tínhamos pela frente dois exames - um de Álgebra Linear, Probabilidades e Equações Diferenciais e um outro de Redes Informáticas, Circuitos Electrónicos, Algoritmos e Arquitectura de Computadores. O ar rarefeito obrigou-me a usar oxigénio mas não deixei de acreditar e, pé ante pé, por fim encontrei os 5 guardiões da porta. No dia seguinte sentei-me a uma mesa austera e os 5 Professores interrogaram-me para saber se eu estava apto a entrar. Acreditei em mim e defendi o sonho até que soube que tinha sido admitido no Mestrado do Departamento de Information and Communication Engineering - Faculdade de Information Science and Technology.

A subida vai ser dura e precisamos de nos preparar, se tudo correr pelo melhor vamos permanecer na 2ª base até Abril de 2008.

O sonho continua!

Post-scriptum: Leiam os poemas que encontram neste blog e acreditem nos vossos projectos.

30/01/06

O Expresso da Meia-Noite

Na hora do lobo (00:00h) os comboios PARAM o seu vaivém, e os noctívagos perguntam-se: Vamos no Expresso da Meia-Noite ou no Comboio da Manhã?

Às Sextas-Feiras e aos Sábados, ao soar a meia-noite, os que escolhem a primeira opção abandonam a lascividade dos neons. Das Mecas do Prazer parte então o Expresso da Meia-Noite. Onde se transgridem os limites da capacidade, e a soma do volume das partes parece superior ao volume do todo. Os corpos quase que se fundem uns nos outros... Misturam-se cheiros, falas, risos e mãos atrevidas, naquele que é o comboio mais ruidoso da semana.

Nos dias de semana o Expresso da Meia-Noite é apenas um comboio de gente exausta e de olhar vazio. Pessoas apáticas de tanta fadiga, e Salarymen (ver nota) alcoolizados que regressam a casa para algumas horas depois fazerem o percurso inverso. E' um bando de gente cansada e calada que nos faz crer que esta cidade cansa...

Post-scriptum: Salarymen é o nome pelo qual são conhecidos os "homens que executam um emprego de colarinho-branco", e que costumam tem a responsabilidade económica do agregado familiar exclusivamente a seu cargo. Vestem-se todos de igual (fato clássico, gravata, cachecol, sobretudo e mala preta), trabalham que se desunham e adormecem facilmente nos comboios.

23/01/06

Memórias de um Inverno distante

Uma das entradas da Universidade (Akamon Gate)

A neve que cai leva-me de volta ao Inverno da Minha Vida, 2001, Finlândia, Oulu (148 Km abaixo da linha do Circulo Polar Artico). Grandioso ERASMUS, que descobertas (interiores/exteriores) me proporcionaste!

As memórias desse Inverno distante são feitas de florestas silenciosas, vestidas de verde e branco; de pessoas bonitas; das noites (quase que) intermináveis; das sempre deslumbrantes Aurora Borialis; de caminhar sobre rios e lagos (gelados claro, pois não nos chamamos JC); do vigor proporcionado pelos -32 graus Celsius e do branco como companheiro diário. E' neste clima inóspito que somos assaltados por uma tão intensa comunhão com a Mãe natureza.

Insólitamente este Sábado nevou em Tóquio. Durante todo o dia as nuvens vestiram a cidade de branco e, por breves momentos, achei-me em Oulu. Contudo, não tardei a detectar o embuste. Faltava a mística e a comunhão escandinava.

Na Universidade surpreendi-me com um Campus inundado de neve e de colegiais. Centenas de jovens jogavam o sonho das suas vidas. Sob o auspício do manto branco que caía do céu faziam os exames de admissão para a selecta Universidade de Tóquio. Que a bonança esteja com todos eles!

20/01/06

Poema V - É p'rá amanhã

É p'rá amanhã
Bem podias fazer hoje
Porque amanhã sei que voltas a adiar

E tu bem sabes como o tempo foge

Mas nada fazes para o agarrar

Foi mais um dia e tu nada fizeste
Um dia a mais tu
pensas que não faz mal
Vem outro dia e tudo se repete
E vais deixando ficar tudo igual


É p'rá amanhã
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar
Ai tu bem sabes como a vida foge
Mesmo que penses que está p'ra durar
(...)


É p'rá amanhã
Deixa lá não faças hoje
Porque amanhã tudo se há-de arranjar
Ai tu bem sabes que o trabalho foge
Mesmo de quem diz que quer trabalhar
(...)


Excerto da canção "É p'rá amanhã"
António Variações (1944-1984)

08/01/06

2006 - Ano do cão

Chegou o momento do fiel companheiro: 2006 é o ano chinês do cão.

O Ano novo é uma das grandes festividades do Japão: durante 6 dias o mundo do trabalho foi esquecido (juro!) e apenas os serviços mínimos se mantiveram a operar... As pessoas reuniram-se em família e visitaram os templos, na ânsia sempre renovada, de que este ano seja o tal.

Nos 3 primeiros dias de 2006, 93.5 milhões de pessoas foram aos templos. Segui a maré e foi em Meiji Jingu (o maior templo Xintoísta de Tóquio) que o novo ano me encontrou, fiz as minhas oferendas e preces com um sorriso, pois o meu ano do galo (2005) foi óptimo e sempre gostei de cães...

O retomar do trabalho foi gradual, o espírito de festa permaneceu ainda por mais alguns dias. Só assim se justificam as gravatas desalinhadas e a falta de equilíbrio de alguns, bem como aqueles outros que, de bagagens na mão, regressam ainda à capital.

Agora os comboios voltam a estar lotados e as ruas enchem-se dos sons e da azáfama habitual. A normalidade regressou. A Todos, Um Feliz Ano do Cão!

Post-scriptum: Normalmente a segunda lua nova a seguir ao Solstício de Inverno marca o inicio do Ano Novo Chinês. O Ano Novo inicia-se entre 21 de Janeiro e 19 de Fevereiro (este ano calha a 29 de Janeiro) e o ano Gregoriano de 2006 equivale ao ano Chinês de 4703. Ou seja, ainda estamos a tempo de ter uma segunda passagem de ano para 2006... :-)