05/10/06

A carta I

“Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:”

Embarcamos na Portela, como Vossa Alteza sabe, dia 5 de Outubro do ano de 2005. Fizemos-nos aos céus há 365 dias e, graças a Deus até ao dia de hoje, os ventos foram de feição e o passar dos cabos não levantou problemas de maior. Quinta Feira, 6 do dito mês, nos achámos em Tóquio e por aqui andamos em calma desde esse dia.

Tanto o Governo desta ilha como o Senhor feudal que nos acolheu em muito boa conta nos têm. A sua generosidade tem sido imensa e "mulheres, pão e vinho" nos têm sido oferecidos. Terras Novas, nativos de todo o mundo, comida exótica e um espanto quase-que-diário fizeram parte deste ano que passou e dos outros que hão-de vir. Mas se houve intensidade, também houve a que não se viveu e é assim que iremos estar atentos e dinamizar em seu prol.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste porto seguro, da Nossa ilha de Cipango, hoje, Quinta-feira, quinto dia de Outubro de 2006.

António Rebordão

Post-scriptum:
O 1º paragrafo faz parte da Carta de Pero Vaz de Caminha aquando da descoberta do Brasil.

3 comentários:

Daniel disse...

:) grande amigo, o tempo passa num piscar de olhos... espero que estejas bem... pela covilâdia está tudo ok... abraço

Maria Ferreira disse...

"Assim foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que nasceram, sempre desejado."

Um ano merece bem o festejo de um pequeno regresso, e por isso esperamos por ti.

Um, abraço!

AMFR

papoila disse...

Muito bem pensado este post, os meus parabéns!
É sempre interessante relembrar esta carta bem portuguesa que, em 2005, ganhou o seu lugar no Registo da Memória do Mundo (programa criado pela UNESCO, em 1992, para a salvaguarda do património documental da Humanidade).